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A
ocupação humana das terras onde viria se estabelecer a Cidade
de Cabo Frio teve início há mais ou menos 6.000 anos, quando
um pequeno bando nômade de famílias chegou em canoas pelo mar
e acampou no Morro dos Índios até então pequena ilha rochosa
na atual barra da Lagoa de Araruama e ponto litorâneo extremo
da margem de restinga do Canal do Itajuru.(Américo Vespúcio
com os Índios Tupinambás - Pintura de Theodore de Bry)
Conforme
as evidências arqueológicas encontradas nesse "sambaquí",
que mais tarde seria abandonado pelo esgotamento de recursos
para sobrevivência, o grupo nômade dispunha de tecnologia
rudimentar e baseava-se numa economia de coleta, pesca e caça,
onde os moluscos representavam quase todo o resultado do esforço
para fins de alimentação e adorno. Há mais de 1.500 anos, os
guerreiros indígenas tupinambás começaram a conquista do
litoral da região. (Vespúcio chega à costa
brasileira - Pintura de Theodore de Bry)
Os
restos arqueológicos das aldeias Tupinambás estudados na região
de Cabo Frio (Três Vendas em Araruama e Base Aero Naval em São
Pedro da Aldeia) e também nos acampamentos de pesca (Praia
Grande no Arraial do Cabo) evidenciam uma adaptação ecológica
mais eficaz que a dos bandos nômades pioneiros. O profundo conhecimento
biológico da paisagem regional, em particular a Lagoa de
Araruama e dos mares costeiros riquíssimos em recursos
naturais, fez com que o pescado se tornasse a base alimentar dos
tupinambás, reforçada pela captura de crustáceos, gastrópodes
e moluscos.
A vegetação de restingas e mangues da orla marítima ofereciam
excepcionais possibilidades de coleta de recursos silvestres, o
que levou ainda a horticultura de várias expécies botânicas,
destacando-se a forte presença da mandioca no cardápio e ao
domínio das técnicas de cerâmica. A caça, atividade
masculina exclusiva, era muito importante como complemento de
proteínas na dieta alimentar dos grupos locais.
Os índios tupinambás batizaram a região de Cabo Frio como
Gecay, único tempero da cozinha, feito com sal grosso cristalizado.
Nos terrenos onde viria se estabelecer a Cidade de Cabo Frio,
foram encontrados quatro possíveis sítios tupinambás. Os dois
primeiros, o Morro dos Índios e a Duna Boavista, apresentavam
indícios de serem acampamentos de pesca e coleta de moluscos,
enquanto o terceiro, a Fonte do Itajuru, próxima do morro de
mesmo nome, era a única forma segura de abastecimento de água
potável e corrente disponível na restinga.
Na referida elevação junto a fonte, o atual Morro da Guia,
acha-se o sítio mais importante da região e um dos mais
relevantes do Brasil pré-histórico: o santuário da mitologia
tupinambá, formado pelo complexo de pedras sagradas do Itajuru
("bocas de pedra"em tupi-guarani). Sobre estes blocos
de granito preto e granulação finíssima, com sulcos e
pequenas depressões circulares, os índios contavam histórias
do seus heróis feiticeiros que ensinavam as artes de viver e
amar a vida. Quando estes heróis civilizadores morriam,
transformavam-se em estrelas, até que o sol decidisse enviá-los
ao itajuru, sob forma de pedras sagradas, para serem veneradas
pela humanidade. Caso fossem quebradas ou roubadas, todos os índios
desapareciam da face da terra.
Em 1503, a terceira expedição naval portuguesa para
reconhecimento do litoral brasileiro, sofreu um naufrágio em
Fernando de Noronha e a frota remanescente se dispersou. Dois
navios, sob o comando de Américo Vespúcio, seguiram
viagem até a Bahia e depois até Cabo Frio. Junto ao porto da
barra de Araruama, os expedicionários construíram e
guarneceram com 24 "cristãos" uma fortaleza feitoria
para explorar o pau-brasil, abundante na margem continental da
lagoa.
Em 1512, este estabelecimento comercial-militar pioneiro, que
efetivou a posse portuguesa da "nova terra descoberta"
e deu início a conquista no continente americano, e que foi destruído
pelos índios tupinambás em função das "muitas desordens
e desavenças que entre eles houve" em 1526. Os franceses
traficavam pau-brasil e outras mercadorias com os índios, na
costa brasileira, desde 1504. Durante as três primeiras décadas
do século XVI, praticamente restringiram sua atuação ao
litoral da região nordeste.
A partir de 1540, por causa do rigoroso policiamento naval
português nestes mares, os franceses exploraram o litoral e
levantaram os recursos naturais de Cabo Frio. Em 1556, construíram
uma fortaleza-feitoria para exploração de pau-brasil, na mesma
ilhota utilizada anteriormente pelos portugueses, junto ao porto
da barra de Araruama. A "Casa de Pedra" cabofriense
ampliou e consolidou o domínio francês no litoral sudeste,
iniciando com a fortaleza de Villegaignon no Rio de Janeiro, um
ano antes. |